Lembro de uma colega que com muita luta e vontade de mudar o mundo resolveu deliberadamente tirar a própria vida. Que triste e ao mesmo tempo belo foi! Nada mais lindo do que acreditar de verdade. Sei que como eu ela acreditava tanto em tanta coisa que o caminho mais fácil parece ser o de deixar de existir. Amo a rebeldia do mesmo jeito que amo a desistência. Natália foi para mim um símbolo, assim como marcos foi em outros sentidos. Quero mudar o mundo para que nunca mais tenhamos que escolher entre morrer ou lutar. As vezes eu não sei, morrer parecer mais próximo... Mas sigo lutando. Viva a luta que ainda bate no peito. O resto é simulacro.
Livre, Livre, Vive!
sábado, 10 de março de 2018
sábado, 26 de outubro de 2013
Não
Parado na janela a avistei. Sua beleza era simples, conservava traços suaves que pouco chamava atenção dos olhares mais vulgares. Cabelos negros caiam até pouco abaixo dos ombros. Seu corpo esbelto contrastava com suas roupas sem luxo. Propositadamente sem luxo, um vestido azul sem estampa. Calçava sandálias de dedo. Parecia esperar alguém, estava sentada num banco da praça. Seus olhos acompanhavam o movimento dos transeuntes de forma desinteressada.
Retirei do maço um cigarro e o acendi. Peguei na prateleira uma garrafa de alguma bebida, aparentava ser vodca, não sei ao certo.
Resolvi voltar para o parapeito e observar novamente. Ela ainda estava lá sentada. Percebi que era jovem, lá pros vinte e pouco. Fiquei a olhando por um tempo. Ela coçava a cabeça e mexia nos cabelos, ainda esperava e transparecia impaciência. Havia algo de intrigante nela. A curiosidade aumentava na medida em que se passavam os minutos.
Peguei-me sonhando por alguns segundos...
Ilusão! É só mais uma pequena beleza fulgaz que me chega aos olhos!É só mais um cigarro! É só mais uma dose da pior das bebidas de botequim!
Bebi toda a dose de uma só vez e puxei um novo cigarro. A possibilidade de construir ilusões me lembrava da saída dos fracos para aguentar a vida. Fiquei irritado comigo mesmo, mas permaneci na janela.
Ela estava olhando em direção ao prédio onde eu estava. Parecia estar admirando a fachada do prédio. Rapidamente olhou para cima e então pude ver. Senti como se algo tivesse me atravessado, como um vento gelado numa noite. Fosse o que fosse, era impossível ficar indiferente. Aqueles olhos! A bebida se revelou num puro gosto amargo de álcool, o cigarro queimava os lábios.
Num impulso me pus a descer as escadas do prédio em direção à praça. Cada degrau desmantelava um passado vazio. Cada passo tinha o peso de uma vida de negação. Cada andar esvaia uma eternidade de hábitos desprezíveis. Um prédio inteiro cheio de nada!
Já na calçada em frente ao prédio pude vê-la mais de perto. Agora parecia mais bela. Seus olhos me atraiam. Ela aparentemente me percebeu, talvez devido à forma desajeitada como atravessei a rua. Andei até ela e parei na sua frente. Ela me encarava com os olhos. Aqueles olhos! Após alguns segundos, respirei fundo e disse:
-Olá.
domingo, 23 de junho de 2013
Mágica da vida
Abracadabra,
Tu nasces,
Tu vives,
Tu cresces.
Abracadabra,
Tu estudas,
Tu trabalhas.
Abracadabra,
Tu pagas,
Tu compras,
Tu acumulas.
Abracadabra,
Tu sustentas,
Tu aceitas.
Abracadabra,
Tu desistes,
Tu diminuis,
Tu adoeces.
Abracadabra,
Tu morres,
(...) Quem foste Tu?
quarta-feira, 27 de março de 2013
A riqueza dramatúrgica e histórica de Mad Men
"Mad Men" é um seriado produzido pelo canal de televisão norteamericano "AMC", a mesma casa de outras famosas séries, como a sensacional "Breaking bad" e a tediosa e inconsistente "The walking Dead". Mad Men nos relata a rotina dos funcionários da agência de publicidade "Sterling-Cooper" no início da década de 60, subdividindo a trama através de vários personagens que revesam o protagonismo de cada episódio com "Don Draper", o diretor do setor criativo da agência e o principal personagem da série.
A respeito dos outros personagens, Peggy é a que também obtém um destaque relevante; uma tímida
secretária que se promove para o setor criativo através da sua percepção aguçada e avançada comparada a mentalidade feminina da época, que era limitada e reduzida aos papéis secundários impostos a elas pelo mercado de trabalho. Peggy é uma das minhas personagens preferidas, pois ela rompe preceitos ao desafia o senso-comum, provando que uma mulher pode exercer um cargo de importância assim como qualquer homem. Há tantos outros personagens não menos interessantes que ocupam a atenção das lentes durante os episódios, exibindo seus dramas de maneira natural, bem atuada e maravilhosamente dirigida. Roger Sterling, Pete Campbel, Joan, Harry Crane, etc. É uma gama de perfis e sub-enredos que fluem organizadamente ao longo dos 45 minutos de episódios, aprofundando e revelando paulatinamente cada aspecto desses personagens que fogem de qualquer caricatura ou definições morais; são humanos, complexos e relativos, e a série não falha em reproduzir toda essa volatilidade psicológica.Um ponto altissimo da série é a ambientação construída delicadamente, transmitindo toda uma atmosfera convincente e charmosa, que exala dos figurinos, carros e hábitos que constituíam parte da rotina da sociedade americana da década de 60, concedendo-nos uma base para traçar paralelos com o presente; fumar era uma atitude quase que involuntária, um instinto que estava presente no comportamento de grande número de cidadãos americanos, sem o mínimo preocupação com a saúde, já que a mídia não publicava os maléficios do fumo devido ao controle rígido das grandes empresas que não queriam ver de forma alguma seus produtos sendo desvalorizados por essas informações. Hoje ainda é assim, mas naquela época a intensidade era maior. Outro hábito
característico dessa época, era à prática da mãe de família zelosa e submissa, que preparava a janta, cuidava dos filhos e esperava pacientemente a chegada do marido em casa, executando um papel rígido que se apresentava como uma obrigação para qualquer mulher. Mães solteiras ou simples solteiros(ª ) não eram muito bem vistos, pois a expectativa da mentalidade coletiva considerava que o matrimônio era o destino indelegável para qualquer individuo que almejasse respeito e notoriedade no contexto patriarcal. Ainda hoje há reminiscências dessa concepção, embora sua influência esteja regredindo sob as novas gerações. Gays assumidos, um fato raro, e negros visíveis, apenas como meros serventes. Hoje, muitos gays já saíram dos armários, mas os negros continuam relegados a profissões de baixa remuneração e sendo vítimas da marginalização. Perceba que vivemos num tempo onde partilhamos certos aspectos comuns desse período, porém com menor incidência.A série retrata fielmente essa realidade conservadora, sem qualquer melodramatização ou clichês, utilizando-se dos talentos dos atores que interpretam muito bem as identidades conturbadas e dinâmicas do seriado. A parte técnica é soberba, uma condução fluída contando com uma ótima fotografia que exibe planos-sequências estupendos. Todo esses atributos fazem de Mad Men um drama top de linha, com grande valor artístico que nos permite avaliar prazerosamente uma dimensão histórica.
Tempo
O que tempo que tenho,
O tempo que não tenho.
Todo tempo que já tive,
Todo tempo que perdi.
Tempo,
Tempo,
...
O tempo que não tenho.
Todo tempo que já tive,
Todo tempo que perdi.
Tempo,
Tempo,
...
segunda-feira, 18 de março de 2013
A estrutura da opressão sorrateira e suas vítimas
* Antes de ler o post, recomendo assistir esse pequeno documentário que retrata a opressão e a difamação que os hippies sofrem das autoridades governamentais e emissoras de TV.
Há uma máxima que diz: "A historia é escrita pelos vencedores." No atual contexto, essa frase poderia ser adaptada pra "A grande mídia é escrita pelos ricos". Note que a palavra "rico" e "vencedor" apresentam sentidos análogos pela ótica competitiva e pseudomeritocrático que paira e domina a mentalidade coletiva capitalista, principalmente da classe média. Mas e o lado "perdedor", como fica ?.
O documentário postado acima nos da um parecer sobre esses mecanismos. Autoridades policiais interveem bruscamente e confiscam itens e produtos artesanais dos hippies, destruindo-os e dificultando a sobrevivência e a expressão dessa parcela de seres humanos; uma típica atitude de governos totalitários. A mídia distorce os fatos com o intuito de validar a prática arbitrária da policia. Como efeito dessa conjugação entre instituição e mídia, temos a opinião pública que fecha os olhos e aponta o dedo contra uma cultura inteira que merece reconhecimento e respeito como qualquer outra vertente cultural, provando que há toda uma estrutura que nos induz a tomar convicções sem o mínimo de reflexão ou percepção sobre o que está por trás de cada mensagem veiculada.
Essa obtusidade é fruto de uma operação massiva que começa desde a mais tenra infância, através da publicidade que se aproveita da debilidade infantil para implementar ideais consumistas, onde valores subjetivos são atrelados a produtos. Atividades artesanais e criativas são substituídas por brinquedos que já simulam realisticamente o que poderia ser imaginado, minguando a criatividade ao oferecer um produto previamente idealizado. O resultado é que gradativamente o individuo perde uma excelente oportunidade para aprimorar o seu subjetivismo numa época essencial das nossas vidas, a infância, construindo assim uma base binária, restrita de pensamento; ou você tem ou você não é nada; vencedores vs perdedores; valores são materiais; interpretações não existem. Crianças crescem com essas atribuições e muitas delas enfrentam imensas dificuldades para elimina-las, e acabam prosseguindo suas vidas limitadas num universo simplório que resume tudo como uma simples mercadoria. Preconceitos e outras leituras equivocadas da realidade se tornam rotineiras e persistem bravamente na mentalidade, incapacitando o individuo de apreciar a subjetividade de grandiosas obras artísticas, de compreender metáforas elaboradas, de visualizar a complexidade da história, das expressões culturais e das reações humanas; enfim, perdemos talvez aquilo que mais nos diferencia dos outros animais, a capacidade de se perguntar "porque ?", de exercer o princípio filosófico.
Ao longo da história, a repressão sempre foi caracterizada pela sua natureza invasiva, latente e direta. Hoje, com a democracia em voga, foi preciso uma remodelação dos mecanismos de opressão para se adaptarem e continuarem existindo sob um contexto democrático. Ela está nas entrelinhas, camuflada, furtiva, sorrateira mas infelizmente ainda vive e alicia contingentes consideráveis que nem sequer percebem a opressão entrando pela porta dos fundos, na ponta dos pés.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Sobre o lobo de Hermann Hesse: Uma interpretação !
O enrendo tem como fundamento a vida lamentosa de Harry Haller, um cinquentão que enfrenta uma diversidade de dilemas, crises e infelicidades que o fazem tomar convicções misantropas e onsequentemente uma postura retraída e negativista, disparando definições e análise impiedosas que categorizam o estilo de vida burguês como fútil e ilusório, ou seja, um típico Lobo da estepe, deslocado de sua matilha. Porém, Hermann não reduz a trama a esses aspectos comportamentais; há também outras facetas que entram em jogo, angustiando e conflituando ainda mais o pobre Haller. Ele nutre uma certa ojeriza a burguesia, mas simultaneamente Haller também admira e encontra prazeres nos aspectos oriundos da burguesia. Haller não suporta jazz, um ritimo vulgar e simplório que não faz jus a complexidade das obras musicais eruditas que tanto tem apreço. Mas aos poucos, gradativamente, ele está numa festa entoada pelas notas jazzisticas enquanto o corpo reverbera em sintonia harmoniosa com o ritimo da manifestação musical que antes dedicava tanto desprezo.
A principio, numa leitura mais restrita e menos interpretativa, poderíamos identificar um dualismo que muitas vezes Hesse tenta transmitir através de sentenças que nos fazem ter certeza da natureza dualista da obra, que consiste no contraste entre o homem culto burguês versus o Lobo antissocial e selvagem que habita e disputa vorazmente o controle mental do personagem. Mas o escritor trata de dissipar essa dualidade simplista no desenvolver da trama, inserindo novos personagens, novas concepções e desbravando áreas desconhecidas da consciência de Haller que nos da pista sobre quem é, e o porquê de ser tão angustiado e frustrado. Aos poucos, Hesse nos expõe que a nossa consciência na verdade é constituída por diversos fragmentos dispersos, de naturezas diferentes, transitando entre o consciente e o subconsciente, geradas pelas experiências. A grande questão que o livro nos joga, é como conciliar essas variantes de características opostas; como organiza-las e fazê-las fluírem ordenadamente em nossas consciências, para que afinal, sejamos felizes com o estabelecimento do equilíbrio. Segundo a minha interpretação, O lobo da estepe nos demonstra que a razão da nossa infelicidade reside na rebeldia desses elementos da consciência que não se compatibilizam e se chocam sistematicamente ao longo da nossa vida. Isso faz muito sentido se analisamos que a vida é repleta de contradições, de decisões difíceis, de privações, de conformismos, arrependimentos; todos essas mazelas baseiam-se na contrariedade dos nossos pensamentos, que às vezes, não conseguem selar um consenso. Assumimos diversos caráteres até mesmo no cotidiano; temos oscilações de humor, mudanças de percepções e alternâncias drásticas no que tange ao nosso comportamento em geral se for analisado retrospectivamente. Tudo isso serve pra comprovar que a divergência desses fragmentos que formulam nossa consciência afeta visceralmente e permanentemente nossas vidas.
Em suma, somos contraditórios e temos que lidar com essa discordância dentro de nós. Nessa obra prima, Hesse expressa de maneira incrível que não existe maniqueísmo, não existe preto no branco; o que de fato acontece é que não só a personalidade, mas tudo ao nosso redor é construído por diversas camadas e facetas que se acrescentam até formarem um organismos complexo com inúmeras variações. E o lobo da espete seve com uma alegoria brilhante para traçar um paralelo com o mecanismo da consciência: todos os fatores que fundamentam a existência da consciência são lobos das estepes; são selvagens, solitários e principalmente desligados de qualquer sentimento de pertença ou identidade. São diferentes, tão diferentes um dos outros que se refugiam e reagem violentamente contra qualquer manifestação de interação. O que nos resta é domar esses lobos ou pelo menos adocica-los para que não nos perturbem tanto.
Ps: Não entrei em detalhes descrevendo os acontecimentos do enredo, pois não quis comprometer a leitura de quem eventualmente se interessou pelo livro. Foi mais uma interpretação mesmo, já que ela é subjetiva e por isso não estraga a surpresa de ninguém.
Ps 2: LINK DA OBRA EM PDF NOS COMENTÁRIOS. BOA LEITURA!.
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