sábado, 26 de outubro de 2013

Não


    Parado na janela a avistei. Sua beleza era simples, conservava traços suaves que pouco chamava atenção dos olhares mais vulgares. Cabelos negros caiam até pouco abaixo dos ombros. Seu corpo esbelto contrastava com suas roupas sem luxo. Propositadamente sem luxo, um vestido azul sem estampa. Calçava sandálias de dedo. Parecia esperar alguém, estava sentada num banco da praça. Seus olhos acompanhavam o movimento dos transeuntes de forma desinteressada.

    Retirei do maço um cigarro e o acendi. Peguei na prateleira uma garrafa de alguma bebida, aparentava ser vodca, não sei ao certo.

    Resolvi voltar para o parapeito e observar novamente. Ela ainda estava lá sentada. Percebi que era jovem, lá pros vinte e pouco. Fiquei a olhando por um tempo. Ela coçava a cabeça e mexia nos cabelos, ainda esperava e transparecia impaciência. Havia algo de intrigante nela. A curiosidade aumentava na medida em que se passavam os minutos.

    Peguei-me sonhando por alguns segundos...

    Ilusão! É só mais uma pequena beleza fulgaz que me chega aos olhos!É só mais um cigarro! É só mais uma dose da pior das bebidas de botequim! 

    Bebi toda a dose de uma só vez e puxei um novo cigarro. A possibilidade de construir ilusões me lembrava da saída dos fracos para aguentar a vida. Fiquei irritado comigo mesmo, mas permaneci na janela.

    Ela estava olhando em direção ao prédio onde eu estava. Parecia estar admirando a fachada do prédio. Rapidamente olhou para cima e então pude ver. Senti como se algo tivesse me atravessado, como um vento gelado numa noite. Fosse o que fosse, era impossível ficar indiferente. Aqueles olhos! A bebida se revelou num puro gosto amargo de álcool, o cigarro queimava os lábios.

    Num impulso me pus a descer as escadas do prédio em direção à praça. Cada degrau desmantelava um passado vazio. Cada passo tinha o peso de uma vida de negação. Cada andar esvaia uma eternidade de hábitos desprezíveis. Um prédio inteiro cheio de nada!

    Já na calçada em frente ao prédio pude vê-la mais de perto. Agora parecia mais bela. Seus olhos me atraiam. Ela aparentemente me percebeu, talvez devido à forma desajeitada como atravessei a rua. Andei até ela e parei na sua frente. Ela me encarava com os olhos. Aqueles olhos! Após alguns segundos, respirei fundo e disse:

    -Olá.

Um comentário:

  1. realmente me tocou.
    é profundamente filosófico, vai de uma utopia a uma distopia numa frase, revela a mediocridade e a beleza do cotidiano de forma espetacular. é um texto constituido em cima de uma estética. os gestos simples revelam o profano e o sagrado na vulgaridade do dia à dia. o texto é pequeno mas ganha uma imensa força quando mostra a imensidão do tempo que transcorre em poucos minutos.
    é perfeito. à ala Nelson Rodrugues

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