segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre o lobo de Hermann Hesse: Uma interpretação !





Sabe, há certos clichês e sensos comum que se confirmam. A maioria deles estão errados, encobertos por misticismos e análises simplórias que dificilmente encontram validade na realidade, constituindo-se num empecilho que obscurece e atrapalha o desenvolvimento do senso crítico. Mas há uma frase clichê em especial que eu concordo integralmente: Livros podem mudar suar vida. E se há uma obra que ocasionou tal efeito em miha vida, foi O Lobo da Estepe, do gênio Hermann Hesse.

Herman Hesse vivenciou um período conflituoso, marcado pela ascensão de regimes totalitários, de revoluções, guerras e do despontamento de novas teorias filosóficas de cunho existencialista. Uma conjuntura riquíssima para intelectuais buscarem inspirações e reconduzi-las para o formato artístico. Não é atoa a abundância de ótimos escritores como Thomans Mann, Franz Kafka, James Joyce, Virginia Wolf e tantos outros que descreveram e interpretaram magnificamente a realidade dinâmica e pulsante dos primeiros 50 anos do século 20. E Herman Hesse não perdoou a oportunidade; tinha consciência que a época vivida por ele era demasiadamente rara e especial para não ser estudada e interpretada. E motivado por isso e também obviamente, pela sua vida pessoal, Hesse publicou obras que tangenciam o modelo de vida contemporâneo, tecidas por uma abordagem existencial que dilacera a consciência e expõe fragmentadamente os aspectos da personalidade conturbada e problemática do ser humano. E uma obra que conseguiu sintetizar com excelência essa formula foi O lobo da Estepe, publicada em 1927.

O enrendo tem como fundamento a vida lamentosa de Harry Haller, um cinquentão que enfrenta uma diversidade de dilemas, crises e infelicidades que o fazem tomar convicções misantropas e  onsequentemente uma postura retraída e negativista, disparando definições e análise impiedosas que categorizam o estilo de vida burguês como fútil e ilusório, ou seja, um típico Lobo da estepe, deslocado de sua matilha. Porém, Hermann não reduz a trama a esses aspectos comportamentais; há também outras facetas que entram em jogo, angustiando e conflituando ainda mais o pobre Haller. Ele nutre uma certa ojeriza a burguesia, mas simultaneamente Haller também admira e encontra prazeres nos aspectos oriundos da burguesia. Haller não suporta jazz, um ritimo vulgar e simplório que não faz jus a complexidade das obras musicais eruditas que tanto tem apreço. Mas aos poucos, gradativamente, ele está numa festa entoada pelas notas jazzisticas enquanto o corpo reverbera em sintonia harmoniosa com o ritimo da manifestação musical que antes dedicava tanto desprezo.

A principio, numa leitura mais restrita e menos interpretativa, poderíamos identificar um dualismo que muitas vezes Hesse tenta transmitir através de sentenças que nos fazem ter certeza da natureza dualista da obra, que consiste no contraste entre o homem culto burguês versus o Lobo antissocial e selvagem que habita e disputa vorazmente o controle mental do personagem. Mas o escritor trata de dissipar essa dualidade simplista no desenvolver da trama, inserindo novos personagens, novas concepções e desbravando áreas desconhecidas da consciência de Haller que nos da pista sobre quem é, e o porquê de ser tão angustiado e frustrado. Aos poucos, Hesse nos expõe que a nossa consciência na verdade é constituída por diversos fragmentos dispersos, de naturezas diferentes, transitando entre o consciente e o subconsciente, geradas pelas experiências. A grande questão que o livro nos joga, é como conciliar essas variantes de características opostas; como organiza-las e fazê-las fluírem ordenadamente em nossas consciências, para que afinal, sejamos felizes com o estabelecimento do equilíbrio. Segundo a minha interpretação, O lobo da estepe nos demonstra que a razão da nossa infelicidade reside na rebeldia desses elementos da consciência que não se compatibilizam e se chocam sistematicamente ao longo da nossa vida. Isso faz muito sentido se analisamos que a vida é repleta de contradições, de decisões difíceis, de privações, de conformismos, arrependimentos; todos essas mazelas baseiam-se na contrariedade dos nossos pensamentos, que às vezes, não conseguem selar um consenso. Assumimos diversos caráteres até mesmo no cotidiano; temos oscilações de humor, mudanças de percepções e alternâncias drásticas no que tange ao nosso comportamento em geral se for analisado retrospectivamente. Tudo isso serve pra comprovar que a divergência desses fragmentos que formulam nossa consciência afeta visceralmente e permanentemente nossas vidas.

Em suma, somos contraditórios e temos que lidar com essa discordância dentro de nós. Nessa obra prima, Hesse expressa de maneira incrível que não existe maniqueísmo, não existe preto no branco; o que de fato acontece é que não só a personalidade, mas tudo ao nosso redor é construído por diversas camadas e facetas que se acrescentam até formarem um organismos complexo com inúmeras variações. E o lobo da espete seve com uma alegoria brilhante para traçar um paralelo com o mecanismo da consciência: todos os fatores que fundamentam a existência da consciência são lobos das estepes; são selvagens, solitários e principalmente desligados de qualquer sentimento de pertença ou identidade. São diferentes, tão diferentes um dos outros que se refugiam e reagem violentamente contra qualquer manifestação de interação. O que nos resta é domar esses lobos ou pelo menos adocica-los para que não nos perturbem tanto.


Ps: Não entrei em detalhes descrevendo os acontecimentos do enredo, pois não quis comprometer a leitura de quem eventualmente se interessou pelo livro. Foi mais uma interpretação mesmo, já que ela é subjetiva e por isso não estraga a surpresa de ninguém.

Ps 2: LINK DA OBRA EM PDF NOS COMENTÁRIOS. BOA LEITURA!.

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