segunda-feira, 18 de março de 2013

A estrutura da opressão sorrateira e suas vítimas


* Antes de ler o post, recomendo assistir esse pequeno documentário que retrata a opressão e a difamação que os hippies sofrem das autoridades governamentais e emissoras de TV.


Há uma máxima que diz: "A historia é escrita pelos vencedores."  No atual contexto, essa frase poderia ser adaptada pra "A grande mídia é escrita pelos ricos". Note que a palavra "rico" e "vencedor" apresentam sentidos análogos pela ótica competitiva e pseudomeritocrático que paira e domina a mentalidade coletiva capitalista, principalmente da classe média. Mas e o lado "perdedor", como fica ?.

Os hippies dentro do universo consumista e competitivo são exemplos de perdedores; "vagabundos" e "incapazes" de conquistarem o tão almejado emprego bem renumerado que concederia aquele selo de "CIDADÃO DE BEM(sic)", uma espécie de imunizador que repele qualquer olhar desconfiado ou um gesto de indiferença e nojo. Os hippies portanto, estão à margem das relações mercantis, e por isso representam um valor baixo, pois não fomentam a neura consumista que rege e faz o sistema se manter e se expandir. Hippies não consomem roupas de marca, tênis, relógios; não compram bebidas e muitos menos vão pra eventos privados. Seria lógico pensar em métodos, ou melhor, em preconceitos e práticas que suprimisse e tornasse o estilo de vida hippie improvável e extremamente degradante, publicando uma imagem que frustrasse qualquer ímpeto de assumir esse modelo de vida.

 O documentário postado acima nos da um parecer sobre esses mecanismos. Autoridades policiais interveem bruscamente e confiscam itens e produtos artesanais dos hippies, destruindo-os e dificultando a sobrevivência e a expressão dessa parcela de seres humanos; uma típica atitude de governos totalitários. A mídia distorce os fatos com o intuito de validar a prática arbitrária da policia. Como efeito dessa conjugação entre instituição e mídia, temos a opinião pública que fecha os olhos e aponta o dedo contra uma cultura inteira que merece reconhecimento e respeito como qualquer outra vertente cultural, provando que há toda uma estrutura que nos induz a tomar convicções sem o mínimo de reflexão ou percepção sobre o que está por trás de cada mensagem veiculada.




Essa obtusidade é fruto de uma operação massiva que começa desde a mais tenra infância, através da publicidade que se aproveita da debilidade infantil para implementar ideais consumistas, onde valores subjetivos são atrelados a produtos. Atividades artesanais e criativas são substituídas por brinquedos que já simulam realisticamente o que poderia ser imaginado, minguando a criatividade ao oferecer um produto previamente idealizado. O resultado é que gradativamente o individuo perde uma excelente oportunidade para aprimorar o seu subjetivismo numa época essencial das nossas vidas, a infância, construindo assim uma base binária, restrita de pensamento; ou você tem ou você não é nada; vencedores vs perdedores; valores são materiais; interpretações não existem. Crianças crescem com essas atribuições e muitas delas enfrentam imensas dificuldades para elimina-las, e acabam prosseguindo suas vidas limitadas num universo simplório que resume tudo como uma simples mercadoria. Preconceitos e outras leituras equivocadas da realidade se tornam rotineiras e persistem bravamente na mentalidade, incapacitando o individuo de apreciar a subjetividade de grandiosas obras artísticas, de compreender metáforas elaboradas, de visualizar a complexidade da história, das expressões culturais e das reações humanas; enfim, perdemos talvez aquilo que mais nos diferencia dos outros animais, a capacidade de se perguntar "porque ?", de exercer o princípio filosófico.

Ao longo da história, a repressão sempre foi caracterizada pela sua natureza invasiva, latente e direta. Hoje, com a democracia em voga, foi preciso uma remodelação dos mecanismos de opressão para se adaptarem e continuarem existindo sob um contexto democrático. Ela está nas entrelinhas, camuflada, furtiva, sorrateira mas infelizmente ainda vive e alicia contingentes consideráveis que nem sequer percebem a opressão entrando pela porta dos fundos, na ponta dos pés.

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